Archive for 2019

"Limpar" a Floresta

Tal como em 2018, hoje acaba o prazo para "limpar" a floresta. 
Grosso modo apresenta-se esta "limpeza" como a panaceia para resolver os incêndios florestais em Portugal e isso é, no mínimo, preocupante. Aquilo que for feito poderá, obviamente, ajudar mas não é (nem pode ser até pelos custos) a solução. O principal problema está a ser (e muito bem) combatido - a negligencia e o chico-espertismo que provoca um número elevadíssimo de ignições. 
"Limpar" começa por ser uma prática ambientalmente e ecologicamente errada, com elevado consumo de combustíveis fósseis e com destruição de muitas espécies arbustivas que têm obviamente um papel importante em termos naturais. É, como está fácil de ver, um acto contrário ao que naturalmente floresce e não me parece que seja este o principal problema dos grandes incêndios no país. 
Nos últimos dias surgiram duas notícias que só podem estar relacionadas entre si: uma assegura que “nem a pagar 1.000€ se consegue pessoal para limpar a floresta” e, uma outra, no meio de uma interessante entrevista, que “quem não gerir os seus terrenos terá de os vender”. Se correlacionarmos as duas só podemos chegar à conclusão que, no futuro, haverá uma concentração de propriedade em quem tem dinheiro para o fazer. 
Depois veremos para que servirão as grandes parcelas de terrenos sem grande aptidão agrícola. Depois veremos se não servirão para expandir ainda mais a área de monoculturas florestais de resinosas e potenciar, a curto ou a médio prazo, o risco de incêndios florestais catastróficos. Depois veremos se a não gestão será sancionada com venda ou se haverá tolerância como algumas parcelas do Estado que, fruto do "corte nas gorduras" se viram depauperadas de recursos humanos e materiais fundamentais à sua gestão.
É efectivamente imperativo que se mude a paisagem, que se combata a proliferação de uma floresta de exploração intensiva, com espécies nocivas ao nosso clima, monoculturas de eucalipto, pinheiro e outras, que se devia ir. Proteger a natureza e combater as alterações climáticas em vez dos grandes interesses económicos que promovem a eugenização silvícola. Ainda é com orgulho que se anunciam as "maiores manchas florestais" de pinheiro da Europa e coisas do género. Isto num clima onde estas enormes manchas obviamente tornam possível que apenas num dia ardam 200 mil hectares de floresta. 
Apoios, via PDR e outros, podiam ser usados para alterar isto, para promover zonas naturais, selvagens, com espécies endémicas, mais resistentes, que conservem a integridade dos solos, que potenciem a regeneração e a qualidade dos recursos hídricos, mas raramente o são. Podíamos também aproveitar este desafio para criar novos parques naturais e, também por essa via, criar condições de fixação de populações, de dinamizar um turismo mais ecológico e sustentável. Curioso que quando se pensa em construir uma barragem, com a albufeira associada, esse argumento surge sempre como uma das mais valias. Florestas de folhosas, como o Gerês, Mata da Margaraça e similares não terão potencial turístico e, pese embora possam arder, não serão mais resilientes e não geradoras de potenciais problemas?
Parece que continuamos a descartar os instrumentos de planeamento para combater estas monoculturas e a dispersão urbanística desordenada. A distribuição de construções é anárquica e não responsabiliza quem escolhe e quem autoriza construir em locais de elevado risco de incêndio, tornando impossível (pela profusão de casos) intervir quando o risco se manifesta. Nesses casos, depois, exige-se a bombeiros e Estado, a protecção de tudo e todos (como se fosse possível).
Alguém que escolhe construir uma casa isolada, em local "aprazível", depois exige tudo - redes de água, esgoto, comunicações, iluminação, etc - e até que o vizinho limpe 50m ao redor da sua habitação o que naturalmente lá cresce. O preço do terreno é naturalmente bastante menor porque estes custos não são considerados. Mas é ou não é fantástico que sejam os vizinhos proprietários a ficar com parte significativa destes custos, perdendo rendimento (por menor produção) e obrigam-se a reduzir o risco que outros voluntariamente aceitaram?
Medidas para promover a repovoação do território, de aposta numa agricultura mais consentânea com o nosso clima, de incentivos fiscais para quem teima em não viver na faixa litoral, quase nada.
Sintetizando podemos quase julgar que podemos construir um país asséptico, sem "mato" - essa coisa aparentemente má - e que sem ele for dizimado deixaremos de ter incêndios. Talvez seja melhor cortar todas as árvores e cimentar todo o país. Deixará seguramente de haver incêndios mas somos capazes de ter outros problemazitos.
Talvez se queira levar à prática a metafórica expressão de Tomás Ribeiro: Portugal, "jardim da Europa à beira-mar plantado".

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Seja O Que Alguém Quiser

Há 50 anos a Terra tremeu e o país entrou em pânico. 

Há 50 anos o país era pobre, muito mais pobre, muito mais ignorante, muito mais devoto mas era, fruto essencialmente dessa pobreza, mais equilibrado. Com uma população muito presente em todo o território, com actividade económica também.

Hoje basta ver os investimentos que se fizeram nos últimos anos e os seus valores, onde eles se fizeram e os que estão igualmente projectados para nos apercebermos que estamos a "desenvolver" o país nas zonas de maior risco. Nas zonas onde existe um perigo com maior capacidade destrutiva. Estamos, no fundo, a concentrar o investimento onde ele tem maior capacidade de ser destruído. Isto em quase tudo, inclinando totalmente o país, desertificando grande parte dele, expurgando-o de capacidade humana e económica. Até na área do socorro e protecção civil a concentração é ali, na "Grande Área Metropolitana" e o "alternativo" é no distrito de Santarém (como se sabe uma zona super segura em termos sísmicos #ironia) 

Após o próximo grande sismo (que acontecerá, não é uma possibilidade) teremos um país ridículo e incapaz pois quase tudo o que de melhor há estará concentrado na área afectada e potencialmente destruída ou inoperacional. Teremos um país muito mais incapaz de se levantar, de encontrar alternativa, com regiões depauperadas, sem gente, sem recursos adequados, sem actividade económica. 

Alguém me explica, tendo em conta que tudo isto é conhecido, que todos sabem que um grande sismo vai acontecer, o porquê de continuarmos a insistir num país desequilibrado, inclinado para Lisboa? 

Alguém me explica a total ausência no planeamento de longo prazo para o desenvolvimento de Portugal de um risco que já nos mostrou, em 1755, que podemos deixar de ser líderes mundiais e passar a ser uns meros actores secundários no panorama económico global? Quando isso acontecer não valerá a pena culpar o último ou o próximo governo. Quando isso acontecer choraremos todos o facto de acharmos que isto nada tem a ver connosco. 

Mais uma vez.

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Paga e Não Bufes

A Ascendi, antes de ser vendida por quase 700 milhões de euros a uns franceses, dava cerca de 20 milhões de lucros anualmente. Dinheiro que saía dos bolsos dos que, sem alternativa, se deslocavam nas "suas" (não houve igualmente dinheiros públicos a pagar IPs e AEs que são o substrato?) auto-estradas. Auto-estradas caras. A A25, por exemplo, é a AE com o quilómetro mais caro em Portugal e, calculo eu, deve ser a que gera mais lucro/km. A 23 e A24 devem (não tenho a certeza) seguir-lhe o exemplo de perto. 

Recentemente o nosso Parlamento aprovou apoios de 300 milhões de euros para subsidiar os passes de transporte público. Transporte público que só existe realmente em Lisboa e Porto. Como assim é, 85% desse valor acabou nas áreas metropolitanas dessas cidades. 

Hoje o mesmo Parlamento chumbou as eliminação das portagens na A23, A24 e A25. Eu, que até entendo isso, não entendo é como é que se podem permitir lucros obscenos à custa de quem não tem alternativas nem subsídios. (a talho de foice gostaria de saber as razões invocadas - preferencialmente em declaração de voto - pelos deputados eleitos por Viseu que são contra esta abolição (incluir os que se abstiveram) e se propõem alternativas). Só não entendo como é que estas auto-estradas são das mais caras. As mais caras em regiões sem transportes públicos e, pior ainda, sem estradas nacionais que sirvam de alternativas. Quem tem menos alternativas tem, portanto, de sustentar lucros a privados que vampirizaram dinheiro público.

Ou assumimos que é essa mesma falta de alternativa que permite, com a complacência e até o beneplácito de quem legisla e executa, que a oferta disponível seja vendida ao preço que bem entendem? Entendemos que a coisa é montada propositadamente para que alguns grupos económicos tenham a estrada e o passe na mão e que façam deles instrumento de lucro à custa da coesão territorial, desenvolvimento económico e social, e da geografia física e humana de grande parte do território do país? 

O país é inclinado, cada vez mais inclinado, acentuadamente litoralizado e concentrado. Tudo resultado de acções concertadas que a isso levam. Só o discurso, de engodo permanente é que não é coerente. Mude-se o discurso. Sejamos todos muito mais honestos.

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